Abril 13, 2026 #Entrevistas

Antonieta Landa, gestora sénior de Doações Individuais do Museu Guggenheim: «A arte chilena tem um grande potencial a nível internacional»

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Quando se fala de arte, o nome Guggenheim ressoa com força no imaginário coletivo. O icónico museu de Nova Iorque não é apenas um dos espaços mais influentes da arte moderna e contemporânea, mas também um ponto de encontro para artistas, colecionadores e gestores culturais de todo o mundo.

Foi até esse cenário que chegou a chilena Antonieta Landa, recentemente nomeada gestora sénior de Doações Individuais do Museu Guggenheim de Nova Iorque. Curadora e gestora cultural com uma trajetória internacional que inclui Santiago, Xangai e Nova Iorque, o seu trabalho tem-se centrado em abrir espaços para artistas latino-americanos e em explorar como a identidade se transforma quando a arte atravessa fronteiras.

A partir da capital cultural dos Estados Unidos, conversámos com Antonieta Landa sobre a sua trajetória, o papel dos museus no mundo contemporâneo e as oportunidades para divulgar a arte chilena na cena internacional.

Desenvolveste a tua carreira em vários países, trabalhando com arte contemporânea latino-americana. De que forma essa experiência internacional alterou a tua visão da arte e, em particular, da arte latino-americana?

Sempre estive ligada à arte contemporânea latino-americana, mas nos últimos 13 anos tenho trabalhado nessa área a partir da diáspora, especialmente com artistas que vivem fora dos seus países.

Interessa-me muito a forma como estes artistas abordam a identidade a partir da distância. É interessante ver como essa identidade vai mudando quando se vive no estrangeiro, como se vão incorporando novas experiências e como essa mistura se reflete no trabalho artístico. Trata-se de uma experiência global que se repete cada vez mais.

De que forma mudou a tua perceção da arte chilena após esta experiência internacional?

Trabalhei bastante com artistas chilenos, especialmente quando vivi na China. Algo que me chama a atenção é que a arte chilena costuma ser muito analítica e conceptual. Sinto que os artistas chilenos são muito rigorosos no seu trabalho, especialmente em comparação com outras cenas latino-americanas.

Por exemplo, em Nova Iorque vejo muitos artistas caribenhos com propostas muito distintas. No caso do Chile, as obras tendem a ser mais limpas, mais precisas e com uma forte base teórica. Essa é uma característica que vejo repetir-se e que me parece muito interessante.

Achas que essa forma de trabalhar está relacionada com a identidade chilena?

Acho que sim. Se nos compararmos com outros países da América Latina, nós, chilenos, tendemos a ser mais tímidos. Mostrar uma obra implica expor-se, e acho que os artistas chilenos pensam muito antes de apresentar o seu trabalho. Isso pode explicar por que razão as obras têm um desenvolvimento conceptual tão aprofundado. É uma generalização, claro, mas é algo que vejo repetir-se: um trabalho mais reflexivo e elaborado antes de ser mostrado ao mundo.

Que papel achas que a arte desempenha na construção da imagem de um país?

A arte desempenha um papel fundamental. Os artistas trabalham a partir de um espaço emocional e sensorial que, por vezes, é difícil de transmitir apenas com palavras. As imagens e as experiências artísticas geram perceções que influenciam a forma como um país é compreendido.

No Chile há artistas incríveis, mas o ecossistema artístico ainda não está tão profissionalizado como noutros países. Ainda não existe uma identidade clara da arte chilena que seja facilmente reconhecível a partir do exterior. É um trabalho que requer também uma estratégia e o desenvolvimento do ecossistema cultural.

Na sua função de Gestora Sénior de Doações Individuais no Guggenheim, como contribui para dar visibilidade à arte latino-americana e em que consiste o seu trabalho?

Uma das minhas responsabilidades é trabalhar com o Giving Circle latino-americano do museu, composto por colecionadores que promovem a arte da região e procuram criar espaços dentro do Guggenheim. Embora não participe diretamente na curadoria, posso apoiar estes colecionadores e reforçar a sua presença no museu, contribuindo para um ecossistema em que colecionadores, instituições e artistas se potenciam mutuamente.

A minha função centra-se na área da filantropia, onde coordeno vários grupos de doadores que apoiam o museu. Através de programas, atividades e laços com artistas, procuro fortalecer estas relações e promover o apoio contínuo ao Guggenheim.

Como é que vês a filantropia cultural no Chile, em comparação com os Estados Unidos?

Acho que, no Chile, a filantropia cultural ainda não está muito desenvolvida. O apoio do setor privado é essencial para sustentar o ecossistema cultural. Nos Estados Unidos, os filantropos são fundamentais para a sobrevivência das instituições culturais, e essas instituições apoiam os artistas.
É um sistema que funciona e que poderia ser mais desenvolvido no Chile. Existem iniciativas como a lei das doações culturais, mas ainda há margem para fortalecer este modelo e facilitar as doações.

Como vês o nível da arte chilena hoje?

Acho que o nível é muito bom, mas ainda falta uma maior internacionalização. A arte chilena fica muitas vezes confinada ao país e há poucas ligações internacionais. No entanto, quando os artistas chilenos trabalham no estrangeiro, costumam ser muito bem recebidos. Isso demonstra que a arte chilena tem um grande potencial a nível internacional.

Sentes-te uma embaixadora do Chile através do teu trabalho?

Não sei se diria que sou uma embaixadora, mas acredito que é importante manter-me em contacto com os artistas chilenos e apoiá-los a partir de onde estou. Acho que quem vive e trabalha no estrangeiro também é um embaixador. A partir do meu papel, posso contribuir criando redes, organizando visitas ou pondo artistas em contacto com instituições. Esse apoio pode ser fundamental para o desenvolvimento das suas carreiras.