Desde a observação dos territórios até à destilação de espécies nativas, o seu trabalho traduz a riqueza geográfica do país em experiências sensoriais únicas que hoje circulam em diversos mercados internacionais.
O que tem sido maravilhoso na experiência do «432» é o contacto com pessoas de todo o mundo que nunca vieram fisicamente ao Chile, mas que começam a viajar através destes aromas.
A pergunta «A que cheira o Chile?» marcou o início de um percurso que hoje define a trajetória de Joel Martínez. Perfumista, destilador e investigador da etno-perfumaria latino-americana, tem dedicado o seu trabalho a explorar a ligação entre território, cultura e aromas, desenvolvendo fragrâncias que captam a identidade do país a partir das suas paisagens e da sua biodiversidade.
Nascido em Arica, no norte do Chile, Martínez cultivou desde cedo a sua ligação com o mundo vegetal através de viagens em família ao interior da região, visitas a viveiros e festividades tradicionais. Esse ambiente despertou nele um profundo fascínio pelas plantas e pelas suas propriedades, que, com o passar dos anos, se transformou numa linha de investigação e criação.
Atualmente, através da sua marca «432», desenvolve composições que têm origem na colheita e destilação de espécies nativas, propondo uma leitura sensorial do território. As suas fragrâncias procuram traduzir processos naturais, memória e paisagem em narrativas olfativas que permitem percorrer o Chile a partir de qualquer parte do mundo.
Como surgiu a tua paixão pela perfumaria e, em particular, pela marca «432»?
Tudo começa em Arica, em Azapa, quando, ainda criança, percorria os viveiros e as festas tradicionais do interior de Arica: Codpa, Mamiña, Matilla, Ticnamar, Socoroma. Essa foi a minha infância e, desde então, os aromas do Mercado Agro têm-me acompanhado até aos dias de hoje. Foi assim que surgiu esta obsessão pelas plantas e pela magia que há nos seus aromas.
Mais concretamente, «432» surgiu após ter estudado e partilhado experiências com produtores de ervas, xamãs e pessoas envolvidas no mundo das extrações de plantas para fins medicinais. Foram eles que me inspiraram a começar a destilar e a descobrir esta beleza que se esconde nas plantas do sul do planeta.

Que tipo de elementos do Chile captas para criar os aromas e para que as pessoas os percebam?
Na última coleção, intitulada «Os sete mestiços», utilizamos matérias-primas provenientes da Patagónia do Sul e das ilhas do Oceano Pacífico. Utilizamos os ciprestes milenares das Guaitecas, troncos caídos há 200 anos de árvores que viveram mais 800, os quais destilamos em colaboração com uma destilaria local em Melinka. Daí, rumo ao norte, passando pelos arrayanes, pelas cascas de canelo, pela chachacoma branca e por uma infinidade de materiais preciosos: as resinas de araucária e a incrível tepa da Araucânia.
Como é o processo técnico para transformar uma planta, uma resina ou uma paisagem num perfume?
O primeiro passo é a inspiração, que provém tanto da geografia como das pessoas que habitam o local e das suas plantas. Por exemplo, a fragrância «Viento Puelche» surgiu em 2020, durante uma «minga» em Liquiñe, na Cordilheira dos Andes, na fronteira com a Argentina, à mesma altitude de Valdivia. Foi aí que tive o meu primeiro contacto com a tepa, um louro selvagem, e com estas árvores lindíssimas.
Seguem-se as extrações, que são realizadas através de alambiques de cobre. O Chile tem uma longa tradição no que diz respeito ao cobre e aos alambiques, uma vez que somos um país produtor de pisco que sempre recorreu à destilação para obter álcoois. O que estamos a fazer na «432» é utilizar essa mesma tecnologia, mas para destilar aromas.
Na tua opinião, a geografia do Chile é ideal para criar aromas? Porquê?
No Chile, temos uma diversidade aromática que ainda não é conhecida no mundo. Temos o deserto de Atacama, a «rica-rica» no norte, o orégão de Socoroma, as mangas de Pica, a chachacoma branca em Colchane. E daí seguimos pela floresta esclerófila com arrayanes, peumos, boldos e até ao sul, com cascas de ciprestes e canelos. Temos uma diversidade territorial e climática que nos permite ser criativos e diversificados. E ainda nem falámos do que existe no fundo do mar.


Formado em França e no Reino Unido, e com um intenso trabalho de campo no Chile, Martínez divide hoje o seu tempo entre a criação de novas composições e a divulgação internacional do seu trabalho. As suas fragrâncias têm tido uma receção positiva nos mercados da Europa e do Médio Oriente, com uma visibilidade crescente nas redes sociais e cobertura na imprensa especializada.
Como tem sido a reação do público internacional? Há algo que lhes chame particularmente a atenção?
O que tem sido maravilhoso na experiência do «432» é o contacto com pessoas de todo o mundo que nunca vieram fisicamente ao Chile, mas que começam a viajar através destes aromas. Clientes dos Estados Unidos, da Europa, do Médio Oriente, da China e até vizinhos do Uruguai ou da Argentina conhecem-nos através dos aromas.
Podem viajar e imaginar-se numa ilha isolada nas Guaitecas através da fragrância Melinka, ou viver a experiência de um Guillatún através da fragrância Canelo Negro. O que mais se ouve, sobretudo entre os colecionadores, é que ficam surpreendidos por isto não se parecer com nada.

Se tivesses de escolher um elemento da geografia chilena para criar uma essência, qual seria e porquê?
Eu escolheria o cipreste das Guaitecas. O cipreste das Guaitecas leva-nos numa viagem através dos séculos; são árvores milenares que sempre estiveram connosco. As tampas de Melinka que se encontram nos nossos perfumes foram encontradas em San Felipe; eram utilizadas como postes num vinhedo, eram utilizadas como mastros em embarcações. Levam-nos a um lugar tão íntimo e ancestral que é uma viagem que nos liga verdadeiramente a outros mundos e desperta em nós lugares e sensações que, por vezes, nem sabíamos que tínhamos dentro de nós.
Por fim, que cheiro tem o Chile?
O Chile cheira a diversidade e também a natureza selvagem.