10 de agosto de 2026 #Entrevistas

Guido Girardi: «O Congresso Futuro democratiza o conhecimento e funciona como uma antena do futuro»

Desde a sua criação, em 2011, este encontro consolidou-se como uma plataforma que articula ciência, políticas públicas, meio académico e sociedade, com vista a antecipar os grandes desafios do futuro. Nesta entrevista, o seu fundador aborda os aspetos-chave de um modelo desenvolvido no Chile que hoje começa a ganhar projeção a nível internacional.

Definições de acessibilidade

A última edição do Congresso Futuro reuniu mais de 65 000 participantes presencialmente, contou com a presença de 120 especialistas nacionais e internacionais — entre os quais três Prémios Nobel — e abriu o debate sobre temas como a inteligência artificial, o futuro do trabalho e as principais transformações que o mundo enfrenta. Ao longo de mais de uma década, a iniciativa evoluiu de um encontro de divulgação científica para uma plataforma de articulação entre o mundo político, o meio académico, o setor privado e a cidadania, com o objetivo de antecipar e debater os desafios do futuro.

Nesse contexto, Guido Girardi, ex-senador do Chile, vice-presidente executivo da Fundação Encuentro del Futuro e fundador do Congreso Futuro, conversou com o Marca Chile sobre a evolução desta iniciativa, o valor de um modelo colaborativo que hoje começa a ser replicado noutros países, o desenvolvimento de projetos como o LatamGPT, a liderança do Chile no domínio dos neurodireitos e o papel que a ciência e a tecnologia podem desempenhar na construção de uma imagem mais competitiva do país.

Um modelo de exportação

O Congresso Futuro consolidou-se como uma das principais plataformas de divulgação científica da região. Na sua opinião, qual tem sido a sua principal contribuição para a integração da ciência e do pensamento voltado para o futuro na agenda pública chilena?

Estamos a viver uma era de mudanças gigantescas, em que o mundo de amanhã será gerido pela tecnologia. Sempre foi assim, mas agora tudo acontece a uma velocidade exponencial; estamos numa era de aceleracionismo tecnológico que começa a tornar obsoletas todas as instituições. Neste cenário, o Congresso Futuro funciona como uma antena do futuro. Ao convidar 120 das mentes mais brilhantes do mundo, conseguimos antecipar-nos e delinear cenários possíveis para compreender o mundo que se avizinha.

Além disso, democratizamos o conhecimento. Contribuímos para que esta conversa deixe de ser um privilégio da elite e se transforme num debate de toda a sociedade. O que nos torna únicos é o facto de conseguirmos reunir todas as universidades chilenas, tanto públicas como privadas, a Academia de Ciências, as regiões e os territórios. Reunimos à mesma mesa o Senado, a Câmara dos Deputados e o setor privado.

Desta forma, reconstruímos um espaço que se estava a perder na sociedade: o da conversa democrática, do consenso e do acordo. O Congresso Futuro é um laboratório de inovação social e uma antena que não se limita a aguardar a chegada do futuro, mas que o constrói a partir da compreensão e do aproveitamento das nossas oportunidades.

Nessa mesma linha, quais são os elementos distintivos do modelo do Congresso Futuro que o tornam um formato chileno inovador, capaz de ser replicado com sucesso a nível internacional?

Em nenhum outro lugar do mundo existe a possibilidade de um parlamento reunir todas as universidades do seu país, públicas e privadas, juntamente com a Academia de Ciências, o setor privado, as regiões, os presidentes de câmara e a juventude. Conseguimos preservar e potenciar esse valor: o de criar espaços de diálogo transversais e inteligentes. A inteligência surge precisamente da diversidade. Quanto maior for a diversidade, mais inteligente o Chile poderá ser.

Este modelo é único e já começámos a exportá-lo. Estivemos na Bolívia e também organizámos um Congresso Futuro em Espanha, em colaboração com a SEGIB, no qual participaram o Rei de Espanha, as universidades espanholas e as respetivas academias de ciências. Também o levámos a Marrocos, em colaboração com o Parlamento e as universidades desse país.

Até mesmo as Nações Unidas transformaram iniciativas por nós impulsionadas em modelos globais. A UNESCO convidou-nos porque pretende que o modelo do Congresso Futuro e do projeto Proyecta Chile se tornem referências internacionais exportáveis. O objetivo é criar políticas públicas pertinentes que compreendam o contexto atual, de modo a dar respostas eficientes e a potenciar as nossas múltiplas oportunidades.

Iniciativas como o LatamGPT colocaram o Chile numa posição de destaque no domínio da inteligência artificial na região. Que condições devem ser reforçadas para consolidar e projetar essa liderança?

O sucesso recente de iniciativas como o LatamGPT demonstra que o posicionamento do Chile nesta área é o resultado direto da colaboração. Quando existe uma cooperação efetiva entre as instituições científicas e académicas, o país é capaz de avançar a passos largos e assumir a liderança a nível regional. 

Este enfoque deve estar em sintonia com as grandes áreas em que o país possui vantagens comparativas inigualáveis. O Chile precisa orientar a inteligência artificial para o seu enorme potencial mineiro e energético, a riqueza alimentar dos seus oceanos e a sua capacidade astronómica privilegiada. Além disso, reúne as condições ideais para acolher a infraestrutura de grandes centros de dados e liderar a construção sustentável em madeira, um setor fundamental para o futuro global, no qual o território chileno dispõe de trinta por cento do seu solo com vocação florestal e de uma vasta experiência acumulada. 

No entanto, o avanço tecnológico não pode ser dissociado de um debate político e ético profundo sobre o futuro da humanidade. Tal como bem alertam as encíclicas papais e os fóruns internacionais contemporâneos, o que está hoje em jogo é a própria essência humana perante a possibilidade de entrarmos numa era pós-humana, uma realidade que exige decisões éticas firmes antes que o controlo do futuro nos escape das mãos.

Os «neurodireitos» e a imagem do Chile

Os avanços da neurotecnologia abriram novas oportunidades para o tratamento de doenças e o desenvolvimento científico, mas também colocam desafios sem precedentes para a proteção da privacidade, da identidade e da liberdade cognitiva. Neste contexto, o Chile posicionou-se como referência global ao incorporar os chamados «neurodireitos» no seu quadro constitucional, estabelecendo um precedente ético essencial para o desenvolvimento científico.

Que mensagem transmite o Chile a nível internacional ao incluir esta proteção na sua agenda legislativa?

A posição de vanguarda que o Chile ocupa atualmente no domínio dos neurodireitos é o resultado direto do Congresso Futuro. Neste contexto, contámos com a valiosa participação de Rafael Yuste, diretor mundial do Brain Project, que nos alertou para os riscos futuros dos dispositivos de neurotecnologia atualmente em desenvolvimento.

Estas ferramentas não só prometem ler emoções, sentimentos e até mesmo o inconsciente, como, ao conseguirem ler a mente, também abrem a porta para escrever nela e manipular-nos. Embora este desenvolvimento ofereça um potencial gigantesco para ajudar a enfrentar doenças devastadoras como a doença de Alzheimer ou a doença de Parkinson, também levanta a necessidade urgente de estabelecer limites claros. Temos de definir quando utilizar esta tecnologia em benefício da humanidade e não contra ela. 

Por esta razão, propusemo-nos criar um novo direito humano para a preservação da nossa identidade e, sem ir mais longe, esta legislação foi exportada como modelo a nível mundial.

De que forma a ciência e a tecnologia contribuem para construir uma imagem do país muito mais sólida, competitiva e atrativa a nível internacional?

Iniciativas como o Congresso Futuro demonstram a imensa qualidade da nossa comunidade intelectual. No Chile, estamos a construir sobre os ombros dos gigantes que nos precederam em áreas como a saúde, a educação e a economia, e hoje o país destaca-se por inovações empresariais únicas. 

Historicamente, o mundo tem olhado para o Chile através da beleza dos seus territórios, da cordialidade do seu povo e da profundidade dos seus poetas, consolidando a identidade de um país profundamente espiritual. No entanto, quando a essa riqueza cultural e natural acrescentamos a vanguarda científica do «Congreso Futuro», a criação de leis pioneiras como a dos «neurodireitos» e o impacto de festivais como o «Teatro a Mil», transformamos completamente a nossa reputação internacional. 

Ao dotar o país de ciência, tecnologia e ideias de vanguarda, projetamos a imagem de uma nação moderna e sofisticada para a qual as pessoas de todo o mundo querem vir, à qual querem pertencer e com a qual desejam relacionar-se ativamente.