Quando vejo histórias como as de Bárbara Hernández, Smiljan Radić ou Diego Céspedes, não vejo exceções. Vejo sinais. Vejo indícios de algo que já vem a acontecer há algum tempo: que, a partir do Chile, é possível construir conhecimento, cultura, empresas, tecnologia e impacto global.
Somos um país pequeno, afastado dos grandes centros económicos e culturais do mundo. Mas talvez seja precisamente por isso que desenvolvemos capacidades que hoje se revelam especialmente valiosas.
Nas últimas semanas, vários chilenos destacaram-se a nível mundial graças ao seu talento em diferentes áreas. A nadadora chilena Bárbara Hernández tornou-se a primeira desportista latino-americana a receber o Prémio Alison Streeter, em Inglaterra, após completar a travessia dupla do Canal da Mancha em 27 horas e 19 minutos de natação ininterrupta. O arquiteto Smiljan Radić Clarke recebeu o Prémio Pritzker 2026, considerado o Nobel da arquitetura, um reconhecimento que distingue aqueles que deram contributos significativos para a disciplina a nível global.
No mundo do cinema, o realizador chileno Diego Céspedes fez história ao ser selecionado como membro do júri da Competição Oficial do Festival de Cannes de 2026, graças ao impacto da sua ópera prima, *La misteriosa mirada del flamenco*. No mesmo festival, a curta-metragem *Para os adversários*, realizada pelo argentino Federico Luis e produzida pela empresa chilena Planta, conquistou a Palma de Ouro de Melhor Curta-Metragem, tornando-se a primeira produção com participação chilena a alcançar esse reconhecimento.
O que chama a atenção nestas histórias não é apenas a sua magnitude, mas também a nossa reação perante elas. Sempre que um chileno se destaca no estrangeiro, a notícia costuma ser recebida como algo improvável, quase anedótico. Comemoramos a conquista, mas, ao mesmo tempo, parece existir uma surpresa constante, como se o sucesso internacional fosse uma exceção e não uma possibilidade real.
No entanto, quando estes casos se repetem vezes sem conta em áreas tão distintas como o desporto, a arquitetura, o cinema, a ciência, a tecnologia ou o empreendedorismo, talvez não estejamos perante factos isolados. Talvez estejamos a observar um padrão que ainda não conseguimos reconhecer totalmente.
O Chile há décadas que forma pessoas extraordinárias em áreas muito diversas. Na minha opinião, não é porque tenhamos mais recursos do que outros países. Muitas vezes acontece precisamente o contrário. Somos um país pequeno, afastado dos grandes centros económicos e culturais do mundo, com um mercado interno limitado e com múltiplos desafios por resolver. Mas talvez seja precisamente por isso que desenvolvemos capacidades que hoje se revelam especialmente valiosas.
Há algo que raramente aparece nas estatísticas ou nos rankings internacionais. Estamos habituados a fazer muito com muito pouco. Estamos habituados a resolver problemas. A encontrar caminhos quando estes não existem. A improvisar quando os recursos são escassos. A criar oportunidades onde outros só vêem limitações. A competir com base na criatividade, em vez de na abundância.
Enquanto em muitas partes do mundo os projetos avançam apoiados por orçamentos gigantescos, equipas enormes e ecossistemas altamente desenvolvidos, no Chile aprendemos a construir a partir da incerteza. Aprendemos a adaptar-nos, a reinventar-nos e a avançar mesmo quando as condições não são as ideais. E embora durante anos tenhamos visto isso como uma desvantagem, talvez hoje se tenha transformado numa das nossas maiores forças.
O mundo está a mudar a um ritmo sem precedentes. A inteligência artificial, a automatização, a transformação digital e os desafios sociais e ambientais estão a obrigar as pessoas e as organizações a adaptarem-se constantemente. Neste contexto, as competências mais valiosas já não são necessariamente os recursos disponíveis, mas sim a capacidade de aprender rapidamente, colaborar, inovar e criar soluções face a cenários incertos.

E, nesse aspeto, nós, os chilenos, temos bastante experiência.
Por isso, quando vejo histórias como as de Bárbara Hernández, Smiljan Radić ou Diego Céspedes, não vejo exceções. Vejo sinais. Vejo provas de algo que já vem a acontecer há algum tempo: que a partir do Chile é possível construir conhecimento, cultura, empresas, tecnologia e impacto global. Vejo pessoas capazes de transformar uma ideia, uma paixão ou uma convicção em projetos que ultrapassam fronteiras e dialogam com o mundo.
Também vejo uma enorme oportunidade para as novas gerações. Porque cada um destes casos alarga o horizonte do que é possível. Mostra a milhares de crianças, jovens e empreendedores que não é necessário ter nascido numa grande capital do mundo para desenvolver uma carreira com impacto internacional. Que o talento pode surgir em qualquer lugar quando há perseverança, trabalho e determinação.
Na minha opinião, chegou o momento de reconhecer que dispomos de condições extraordinárias para competir a nível mundial e de nos atrevermos a disputar esse jogo com mais ambição. Não por arrogância, mas sim por confiança. Com a convicção de que podemos acrescentar valor, criar soluções e liderar iniciativas relevantes a nível global.
Porque uma das maiores riquezas do nosso país reside na ingenuidade, na criatividade e na capacidade das suas pessoas para transformar o que têm em algo muito maior. E essa é uma riqueza que só agora estamos a começar a descobrir.
Artigo publicado originalmente no El País.