O ex-jogador da seleção nacional e figura histórica do Real Madrid reflete sobre o seu papel como embaixador do Chile, a identidade que marcou a sua carreira e o orgulho de representar o país no mundo.
Considerado um dos futebolistas mais importantes da história do Chile, Iván «Bam Bam» Zamorano construiu uma carreira que ultrapassou fronteiras, marcada pela sua capacidade goleadora e pelo seu carácter dentro do campo. Ao longo de mais de uma década no estrangeiro, consolidou-se não só como uma figura do futebol mundial, mas também como um representante da identidade chilena em palcos internacionais.
Ídolo em clubes como o Real Madrid e o Inter de Milão, «pichichi» da Liga Espanhola na época de 1994-95, medalhista olímpico em Sydney 2000 e membro da lista FIFA 100, a sua carreira reflete um legado desportivo que se alia a um forte sentido de pertença. Nesta entrevista, Zamorano aborda o significado de levar o Chile ao mais alto nível, os valores que — na sua opinião — definem os chilenos e a forma como o país deixa a sua marca para além das suas fronteiras.
Como lenda da La Roja e do Real Madrid, o que significou para ti representar o Chile no topo do futebol mundial?
Foi um imenso orgulho e uma honra representar o Chile nos países e clubes mais importantes do mundo. Tive a oportunidade de levar a minha bandeira a todos os campos, o que me permitiu colocar o nosso país no topo em várias ocasiões. Sempre me senti um embaixador no estrangeiro e sinto-me profundamente orgulhoso por ter conseguido algo tão maravilhoso.
Em todas as equipas em que jogaste, foste uma figura muito querida. Que valores dos chilenos achas que representaste, tanto dentro como fora do campo?
Acho que o que mais nos representa é o facto de sermos pessoas esforçadas que se levantam perante a adversidade; somos guerreiros e filhos da dor. Essa identidade permitiu-me, em equipas como o Inter de Milão ou o Real Madrid, encontrar uma oportunidade perante qualquer dificuldade. Sempre procurei o lado positivo, tentando melhorar e projetar-me. Se há algo que nos distingue é esse «sangue mapuche», o facto de sermos guerreiros para alcançar objetivos. Isso demonstrava-se sobretudo dentro do campo, enquanto fora dele tentava sempre dar o meu melhor.

Com base na sua experiência, que papel podem os atletas desempenhar como embaixadores da imagem do país?
Como figuras públicas, temos um papel fundamental. Temos de estar conscientes de que não representamos apenas a nós próprios, mas sim todo um país. Quando cheguei à Europa e me fiz um nome, muitas vezes associavam o Chile a Pinochet ou à Cordilheira. Mas quando se consegue destacar no desporto, a associação passa a ser «Chile, Zamorano», e isso é um grande motivo de orgulho.
Temos uma missão pública e uma enorme responsabilidade: nunca deixamos de ser chilenos. Embora a minha carreira no estrangeiro tenha durado 15 anos e, tecnicamente, eu fosse um estrangeiro, sempre fui chileno de coração. Tentamos sempre representar essa identidade com grande responsabilidade perante os nossos compatriotas.
Viveu muitos anos fora do Chile por causa da sua carreira. O que acha que as pessoas no estrangeiro mais apreciam ou consideram surpreendente no nosso país?
Há muitas coisas que chamam a atenção lá fora. Ao viver na Europa ou nos Estados Unidos, noto que as pessoas valorizam muito o respeito que existe no Chile. Um exemplo que sempre me mencionam é o facto de os carros pararem automaticamente perante uma passadeira.
Também se destacam a limpeza de Santiago, a simpatia das pessoas e a nossa gastronomia, que é muito apreciada quando se conhece. Acima de tudo, todos falam da nossa maravilhosa Cordilheira dos Andes. Temos uma diversidade cultural e geográfica única: deserto a norte e glaciares a sul.
Essa variedade climática é algo que as pessoas realmente apreciam. O Chile é um país lindo, Santiago é uma cidade muito moderna e quem tem a oportunidade de nos visitar fica encantado.

Do que sentias mais saudades do Chile quando estavas fora?
Sou uma pessoa muito ligada à minha família. Durante a minha carreira como futebolista, levei a minha mãe comigo, por isso não sentia tanta falta da comida caseira, como o guisado ou o feijão. O que realmente sinto falta é do carinho, do afeto e daquele costume tão bonito de nos reunirmos ao fim de semana à volta de um churrasco para conversar e desfrutar. Essas experiências, por vezes, perdem-se um pouco no estrangeiro. O que mais se sente falta é do calor do lar e da família.
O que significa o Chile para ti? Como convidarias alguém que não conhece o país a descobri-lo?
Sinto-me profundamente orgulhoso de ser chileno. O Chile é a minha pátria. Significa muito para mim, por ser o lugar onde nasceram os meus pais e avós; tenho um forte apego a este país e amo-o acima de tudo. E claro, como costumo dizer, o Colo-Colo também é o Chile! Mas, sem dúvida alguma, amo o meu país de todo o coração.
O Chile oferece locais espetaculares para visitar, uma gastronomia incrível e é, acima de tudo, um país muito acolhedor. Como diz a canção: «e verás como no Chile se ama o amigo quando é forasteiro». Isso resume perfeitamente a nossa essência. Convido-vos a todos a descobrir e a desfrutar deste país tão acolhedor.