27 de agosto de 2026 #Chile , um país de mulheres #Entrevistas

Beatriz Palma, a empreendedora chilena que transformou a recuperação após o cancro da mama

Mais do que uma prótese, o My Nipp foi concebido como uma alternativa não invasiva de reconstrução após uma mastectomia. Nesta entrevista, a sua criadora conta o que a motivou a desenvolver esta iniciativa, como entende a recuperação da autoconfiança e quais são os seus próximos desafios para expandir o modelo a outros países da América Latina.

Definições de acessibilidade

A partir de uma experiência pessoal marcada pela resiliência e pela procura de novas formas de se reencontrar com a própria imagem, Beatriz Palma criou a My Nipp, uma iniciativa que visa acompanhar mulheres que passaram por uma mastectomia, através de soluções para a reconstrução externa do complexo areola-mamilo. Trata-se de próteses personalizadas, pintadas à mão, que se adaptam especificamente a cada corpo. 

«Uma mulher que se sente bem no seu corpo é capaz de conquistar o mundo», afirma Palma. Com mais de 400 utilizadoras no Chile e o desafio de expandir o seu modelo para outros países da América Latina, a empreendedora faz parte de uma geração de mulheres que estão a impulsionar soluções com impacto.

Como surgiu a My Nipp?

Eu diria que a My Nipp nasce, principalmente, de uma dívida que temos para com as sobreviventes do cancro da mama. Atualmente, na América Latina, apenas uma em cada 10 mulheres que se submete a uma mastectomia tem acesso a uma reconstrução do complexo areola-mamilo. Muitas vezes, têm acesso à reconstrução da mama, do seu volume, mas o complexo areola-mamilo, essa parte do nosso corpo, fica de fora da equação. E, muitas vezes, isso deve-se à falta de acesso ou ao facto de as mulheres não quererem passar por mais cirurgias. As alternativas atuais são dispendiosas, são invasivas e as mulheres estão muito cansadas da dor. O cancro traz muita incerteza, muita dor, e aí existe uma responsabilidade de como lidamos com essa dor, para que essa mulher possa voltar a sentir-se à vontade no seu corpo e recuperar uma autoestima forte. É aí que entra o My Nipp. 

De que forma é que a My Nipp contribui para a autoestima e o bem-estar das mulheres chilenas?

No início, eu descrevia sempre o My Nipp como próteses externas do complexo areola-mamilo para mulheres que passaram por uma mastectomia. Hoje em dia, essa abordagem mudou e descrevo-o como um ecossistema onde falamos de produto, onde falamos de propósito e falamos de comunidade. Há alturas em que o My Nipp é uma conversa, ou consiste em ajudar essa mulher a voltar a olhar-se ao espelho. Trata-se simplesmente de a acompanhar sem a julgar. No Chile, temos muito o hábito de agradecer por estares viva, por não teres cancro e por ser preciso seguir em frente e reintegrar-te na vida. Mas tu já não és a mesma, por isso é preciso trabalhar para te reencontrares contigo própria, porque já não vais ser a mesma.

Referiste que a tua missão é tornar o My Nipp acessível a todas as mulheres. Como é que planeias concretizar isso a nível global?

Conseguir que a My Nipp cresça a nível internacional é um dos meus grandes desafios. E, para isso, descobrimos que temos de formar facilitadores locais capazes de implementar o nosso sistema, conhecendo as particularidades locais, de modo a garantir esse acompanhamento que é, na verdade, o mais importante, pois constitui a base para que as mulheres possam utilizar a nossa solução. É por isso que estamos a expandir-nos, em primeiro lugar, na América Latina. Foi por isso que criámos a My Nipp Academy, porque eu não posso reproduzir-me, mas podemos encontrar pessoas que, a nível local, possam fazer este trabalho, possam criar uma comunidade e possam fabricar a prótese. 

«Somos o motor, a força»

Como achas que o teu trabalho tem um impacto positivo nas mulheres do Chile?

Atualmente, temos mais de 400 utilizadoras chilenas que recorreram à nossa solução e nos disseram que esta mudou as suas vidas. Hoje em dia, são capazes de se olharem com mais amor, de se relacionarem com o próprio corpo de forma mais gentil e, no fim de contas, isso representa uma recuperação integral. As mulheres, a nível global, somos o motor, somos a força, somos aquelas que, muitas vezes, movem as nossas famílias. E se isso faltar, tudo desmorona. E uma mulher emocionalmente saudável, uma mulher que se relaciona bem com o próprio corpo, é uma mulher capaz de conquistar o mundo.

De onde vem a tua paixão por reforçar a autoimagem das mulheres e a sua autoconfiança?

Nasce de uma história pessoal, de resiliência. Já fui operada 11 vezes ao nariz e à boca. Nasci com uma fenda palatina e, para mim, a maquilhagem foi o meu mecanismo de defesa. Aprender a reconhecer isso como uma resposta que me fortalecia, que me fazia revelar mais a minha personalidade, é reconhecer que algo externo pode ajudar. E isso traduzi-o nas várias coisas que fiz na vida. Acho que há aqui um trabalho enorme a fazer para as fortalecer, para que se vejam com outros olhos e respeitem as suas diferenças, os seus ritmos e as suas formas de ser. 

Ao ver o impacto que o teu trabalho teve na vida de outras pessoas, achas que as mulheres chilenas estão hoje a liderar mudanças que as empoderam?

Sem dúvida. Hoje, acredito que o trabalho que as mulheres chilenas estão a realizar baseia-se na empatia, na análise das necessidades reais, e está a gerar mudanças profundas na sociedade, que não afetam apenas as mulheres, mas todo o nosso entorno. Acho que é muito importante começarmos sempre por nos olharmos ao espelho e, quando estamos bem connosco mesmas, somos expansivas. Sinto que a mulher chilena tem um superpoder: quando nos unimos, é como se ninguém nos pudesse deter. Somos tremendamente poderosas. Temos vontade de conquistar o mundo. 

Lembras-te de alguma história do My Nipp que te tenha marcado particularmente?

Cada mulher é um mundo, mas acho que nunca vou esquecer uma das primeiras pacientes que me disse: «Não é que eu volte a ser a mesma, é que agora estou completa». Mais tarde, ela explicou-me que agora tinha, de facto, permissão para viver, tinha permissão para ser. Agora, ela pode dizer que se sente completa nas suas diversas dimensões. A primeira paciente também me marcou muito, porque eu tinha ido simplesmente para lhe colocar uma prótese, mas essa prótese abriu uma caixa de Pandora de onde surgiram emoções, surgiram lágrimas, e vais-te apercebendo e dizes: «Uau, eu não sabia que ia ter de enfrentar isto». E depois, quando ela me contou que a sua filha pequena a viu no chuveiro e lhe disse: «Mãe, finalmente melhoraste, o mamilo voltou a aparecer», a minha alma e o meu coração explodiram. Compreendi como isto pode afetar a pessoa a tantos níveis.