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O sabor de uma região: vozes do pisco chileno

O clima, a terra e as pessoas que dedicaram a sua vida ao pisco revelam a história cultural e humana por trás deste símbolo da identidade chilena.

15 de maio de 2026 #Vozes do Chile

Nos vales do norte do Chile, o pisco é muito mais do que uma bebida destilada. É paisagem, memória, ofício e uma tradição que se tem transmitido de geração em geração. Através das vozes de produtores, destiladores e famílias de produtores de pisco, este capítulo explora a relação entre território, identidade e um dos produtos mais emblemáticos do país.

Patricio Azocar

Diretor de Enologia da Capel.

_ O pisco faz parte da essência do chileno. Os jovens — tanto os de antigamente como os de hoje — adoram o pisco e a piscola. O pisco faz parte da nossa identidade, talvez mais do que o vinho.

_ Antes da Guerra do Pacífico, o pisco era um produto artesanal e regional, que quase ninguém conhecia. Após a guerra, o pisco tornou-se a bebida da moda, o que impulsionou o crescimento do produto: surgiu uma procura. Foi assim que nasceram as empresas produtoras de pisco, as marcas e os prémios. Foi aí que surgiu também a Denominação de Origem Pisco Chileno, a primeira da América e a segunda a nível mundial.

_ O mais importante é o local, o terroir. O nosso clima confere um carácter especial à uva, e com essa uva produz-se um vinho e um destilado verdadeiramente excecionais. O sabor do pisco é a fruta, é o moscatel, é o Vale do Elqui.

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_ A luminosidade desta latitude e os céus límpidos — aliás, é por isso que os observatórios astronómicos se encontram aqui — fazem com que a uva tenha mais antioxidantes, que lhe conferem aquele aroma, sabor e cor tão característicos. E isso reflete-se na qualidade do vinho e, por fim, na qualidade do pisco.

_ O pisco é um produto muito versátil. Temos produtos de alta qualidade que rivalizam com qualquer destilado do mundo. Quando os barmen o provam, especialmente os piscos mais sofisticados, ficam surpreendidos com a sua qualidade.

_ Os membros da cooperativa são os donos das uvas. Sem essa cultura, sem essas pessoas, sem esse terroir, o pisco não existiria. Nós preservamos as tradições e o vínculo com a terra para que essas uvas se transformem num produto destinado ao mundo.

_ A minha canção chilena preferida é «Vuelta y vuelta», dos Congreso.


Alberto Gallardo

Responsável pelos alambiques na Destilaria Mulet.

_ Eu era ajudante na destilaria e fui aprendendo o ofício observando o meu antecessor. Quando ele adoeceu e se aposentou, fui atirado aos leões.

_ O mais complicado neste trabalho é quando há algum problema com o alambique, que é muito antigo. O outro desafio é aplicar o calor certo. A cerca de 98%, começa a funcionar, a evaporar e, depois, o pisco escorre.

_ O sol desta região é o que torna o pisco especial, pois faz com que a fruta fique muito doce. Há uvas de outros vales que atingem 11 graus de doçura. Aqui, podem chegar aos 18, 20 ou 22 graus. Isso altera completamente o bouquet.

_ A minha canção chilena preferida é o Hino Nacional.

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Romanet Bou 

Sócia e proprietária do Pisco Bou Barroeta.

_ O pisco é identidade, é tradição, é história, é família.

_ Temos uma tradição agrícola que remonta à época colonial. O produto final é o resultado de um conhecimento que se transmite de geração em geração. Isso está profundamente enraizado no meu coração. Para mim, isso é o mais importante.

_ A indústria do pisco cresceu bastante. Há 20 anos, teve uma evolução fulminante e começou a ser reconhecida como um produto característico de certas regiões do nosso país. Hoje, o pisco está no auge, sendo reconhecido a nível mundial.

_ Nos concursos internacionais, já se fala do pisco como um produto excelente. Ele compete com os brandies e os whiskies, e não fica em nada atrás deles. O pisco surge como algo novo, algo diferente, algo inovador. Além disso, é produzido nestes vales recônditos, com um clima espetacular, num país muito distante. Isso também lhe confere um toque muito importante. Ir para o estrangeiro e mostrar o meu produto enche-me de orgulho, porque há muito trabalho por trás e muitas pessoas a apoiar-me.

A minha canção chilena favorita é Gracias a la vida, de Violeta Parra.


Pedro Espinoza

Destilador na destilaria Doña Josefa.

_ Há 47 anos que me dedico a isto. Entrei neste mundo por influência da minha mãe, que começou a trabalhar numa destilaria de pisco aos 20 anos e se reformou aos 67. É daí que vem toda esta tradição.

_ O serviço militar ensinou-me disciplina e isso ajudou-me muito nesta profissão. Para isso, é preciso ser muito responsável, porque aqui tudo se rege por horários e graus. Já trabalhei com caldeiras, com vapor e agora com fogo direto de lenha. Hoje em dia, a maioria usa gás ou petróleo, mas a lenha tem algo de especial: costumo dizer que assim se coloca mais coração no trabalho.

_ Como é que sei quando o pisco está bom? Bem… já estou nisto há 47 anos.

_ A minha canção chilena preferida é «El corralero», de Sergio Sauvalle.


Catalina Mulet

Quarta geração de produtores de Pisco Mulet.

_ Para mim, é muito emocionante trabalhar com o pisco; faz-me sentir muito orgulhosa e, ao mesmo tempo, muito responsável. Penso nos meus bisavós, que viajaram de tão longe para chegar aqui. Chegaram quando ainda nem sequer havia trilhos. Tiveram de vir a cavalo ou de burro.

_ O pisco é muito importante para a nossa identidade como chilenos, e ainda mais nos vales onde é produzido, nas regiões de Atacama e Coquimbo. A nossa história está diretamente ligada ao pisco e à sua produção.

_ O que fazemos não se resume a colocar álcool numa garrafa. Todo o vale está ligado a esta atividade. São gerações de pessoas que se dedicam aos mesmos ofícios: quem constrói os barris, quem controla as misturas dos álcoois. Tudo isso é transmitido de pais para filhos.

_ O que é que as pessoas trazem ao pisco? Amor. Amor pelo que fazem. No fundo, uma parte da alma dessa pessoa fica no produto. Nem todos conseguem passar oito horas a vigiar os alambiques com o mesmo carinho e o mesmo cuidado.

_ O pisco é um produto de tão boa qualidade que sempre penso que seria ótimo se fosse conhecido em todo o mundo. Adoraria que, num bar no Japão, em Londres ou em Banguecoque, as pessoas conhecessem o nosso pisco e soubessem apreciá-lo.

_ A Marca Chile já é uma marca bem posicionada em diversos mercados. Quando tenho de viajar, o facto de os nossos produtos terem esse selo deve deixar-nos orgulhosos. Se for a outro país e vir um produto com a Marca Chile, prefiro-o aos outros, porque sei que é um produto de qualidade.

_ A minha canção chilena preferida é «La Consentida», de Jaime Atria.


Felipe Chaparro Godoy

Enólogo e gerente de produção na Destilaria Aba.

_ O pisco existe no Chile desde 1733, mais ou menos desde a primeira vez que foi registado como pisco numa adega naquilo que hoje é Pisco Elqui. Algumas destilarias mantêm o mesmo método de destilação há décadas, outras têm-se modernizado, mas a principal característica que nos distingue é a qualidade da uva e as pessoas que vivem nesta região do Chile. São esses dois elementos que tornam o pisco tão maravilhoso.

_ Temos vários piscos que ganharam medalhas muito importantes em concursos internacionais, o que atesta a qualidade do pisco que produzimos. O pisco conferiu identidade a uma região do Chile, mas também deu notoriedade ao Chile no estrangeiro.

_ A denominação de origem do pisco chileno, de 1931, é a segunda mais antiga do mundo no que diz respeito a bebidas alcoólicas, a seguir ao conhaque. Todos na região seguimos essas regras; é como se fosse a nossa Bíblia.

_ O pisco tem as suas raízes em duas regiões, mas, no fim de contas, é a bebida nacional. De Arica a Punta Arenas, as pessoas adoram o pisco e é isso que nos une.

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_ A minha canção chilena preferida é «Mambo de Machaguay», dos Los Jaivas.