Octubre 05, 2020 #Chile Diverso

A riqueza e a diversidade da arquitetura tradicional chilena

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Neste contexto, Francisco Godoy, arquiteto e mestre em design sustentável e ambiental pela Architectural Association de Londres, reflecte sobre a importância de realçar a identidade da arquitetura chilena e o grande desafio para os arquitectos de hoje de a valorizarem nas construções contemporâneas. 

"Vivemos num país que é tremendamente diverso em termos de clima. Temos 6.500 quilómetros de costa - vamos da latitude 18 à latitude 50, mais ou menos - por isso temos de responder às encomendas de arquitetura ou de design de edifícios de formas diferentes", diz Godoy. 

Além disso, explica que a arquitetura bioclimática ou vernacular, que é a arquitetura feita por pessoas que foram confrontadas com um determinado clima e começaram a construir a partir dele, forjou de certa forma a arquitetura no Chile ao longo da sua história e do seu território, e isso é algo que é importante não só reconhecer, mas também preservar e continuar a aplicar nos dias de hoje. 

"A diversidade paisagística e climática do Chile resulta numa grande quantidade de tipologias arquitectónicas muito interessantes", diz o profissional, que cita alguns exemplos de construções tradicionais do norte, centro e sul do país que mostram a riqueza e a identidade da arquitetura vernacular.

Aldeia de Tulor, San Pedro de Atacama

"Se pensarmos nos Atacameños do norte do Chile ou se olharmos para a aldeia de Tulor, que é uma estrutura habitacional feita de pedra e lama com telhados de palha e lama em San Pedro de Atacama, faz todo o sentido para aquele clima específico", diz o arquiteto sobre esta construção habitacional no norte do país, que é também um dos mais antigos sítios arqueológicos sedentários do Chile. 

Pucará de Quitor é outra estrutura em San Pedro de Atacama, que apesar de ser uma fortaleza pré-colombiana e não uma construção residencial, reflecte como "o desenho arquitetónico estava totalmente ligado à geografia do lugar e aos materiais disponíveis na zona". Desta forma, o arquiteto indica como a identidade foi construída com uma estética enraizada em cada lugar e, ao mesmo tempo, "100% adaptada ao clima".  

Casa tradicional chilena, vale central

No vale central do Chile, surgem outras tipologias arquitectónicas, diz Godoy, que destaca a casa tradicional chilena, "feita de adobe com telhas muslera", que veio de Espanha para o nosso país na época da Conquista, sendo adaptada às condições locais. "A casa aragonesa, que é a casa original trazida pelo espanhol, era uma casa de três andares com um pátio central muito pequeno para reduzir o impacto do sol, e como no Chile somos um país telúrico, a adaptação chilena é estendida para um único andar com um pátio central maior", diz Francisco Godoy, destacando como a casa tradicional chilena foi construída com base em adaptações da casa aragonesa. 

O arquiteto também destaca as funcionalidades do adobe, um material com uma elevada massa térmica que consegue receber muito sol e manter-se fresco. Graças a ele, as casas tradicionais são frescas no verão e, ao mesmo tempo, quentes no inverno: "Todo o calor que é absorvido pelo material é depois devolvido ao ambiente quando a temperatura desce", explica. A casa tradicional chilena tem outra série de estratégias arquitectónicas, como os beirais para proteger do sol, a utilização de piscinas como sistema de arrefecimento natural ou as palmeiras para dar sombra no pátio central.

Ruca Mapuche, vale central e Araucanía

Francisco Godoy é também professor universitário de arquitetura sustentável. Diz que todos os anos faz com que os seus alunos visitem uma ruca mapuche porque tem importantes decisões de design a observar: "A sua estrutura é feita de madeira porque era o maior material disponível para os Mapuches e está completamente coberta por uma espessa totora, que é feita de palha no exterior mas no interior é composta por filamentos muito finos cheios de ar, que funciona como um excelente isolante".

Além disso, o académico comenta que uma das estratégias mais interessantes do ruca é o facto de o seu espaço interior aberto ter uma fogueira no centro, com um sistema de ventilação muito avançado, que "apesar de a fogueira estar acesa todo o dia, devido à sua tradição, o ar está sempre limpo e o espaço está completamente ventilado".

Palafitos, Chiloé

Os palafitas são baseados na arquitetura da madeira. Godoy explica que, tal como os seres humanos, que quando se encontram num local muito frio e ventoso tendem a aproximar-se e a agarrar-se uns aos outros para se aquecerem, o palafita ocupa a mesma estratégia. "São casas compactas, de espaço e superfície limitados, que em conjunto com outras num continuum, aproveitam a temperatura que cada uma delas gera, funcionando assim como um sistema", explica o arquiteto. 

Enquanto ilha, Chiloé tem também uma tradição e uma identidade fortemente marcadas na sua arquitetura: "Para o Chilote está sempre presente o facto de habitar este espaço entre a terra e o mar", diz Godoy.

O arquiteto destaca Edward Rojas, vencedor do Prémio Nacional de Arquitetura em 2016, que trabalhou toda a sua vida na construção em madeira em Chiloé, valorizando a arquitetura local, e acrescenta que "há mais exemplos de jovens arquitectos que hoje resgatam esta tradição, recuperam palafitas e dão um novo valor a esta arquitetura". 

O desafio para as novas gerações de arquitectos chilenos

Perante o desafio atual para os arquitectos chilenos, Godoy diz que é essencial "resgatar as linguagens e a identidade da arquitetura chilena, da terra, do adobe, da madeira", que estão presentes em muitas das construções tradicionais do país. "É um trabalho que temos de fazer. Temos de transmitir esta mensagem aos estudantes nas universidades", diz o arquiteto. "Acredito que todos os arquitectos e designers podem recuperar esta identidade, aplicando-a dia após dia nos nossos projectos. 

Por último, Godoy afirma que a nossa arquitetura tradicional desperta muito interesse a nível internacional: "Quando se fala com um estrangeiro sobre a casa de campo tradicional, o palafito, etc., isso chama muito a atenção e é muito atrativo". O arquiteto conclui com a importância de "compreender, ter orgulho no que construímos e depois sair para mostrar ao mundo o que temos" e continuar assim, inspirado nas nossas próprias raízes chilenas. 

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