25 de maio de 2026 #Chile diverso #Património

Bairro Franklin, património vivo que liga a tradição chilena ao mundo

Com uma identidade que dialoga com mercados icónicos como La Boquería em Barcelona, Camden Market em Londres ou o Mercado de San Telmo em Buenos Aires, o Bairro Franklin consolida-se como um dos centros culturais e comerciais mais autênticos de Santiago. No Mês do Património, destacamos parte da sua história, os seus ofícios e aqueles que mantêm viva a sua essência. 

Definições de acessibilidade

Um lugar com história 

Situado a sul do centro de Santiago, o Bairro Franklin tem as suas origens no início do século XX, em torno do antigo Matadouro Público. Desde então, passou de um papel de eixo de abastecimento industrial para um dinâmico bairro cultural, onde convivem tradição, comércio e novas formas de expressão criativa. 

Os seus característicos galpões e «persas» formam um ecossistema único que hoje funciona como património vivo, atraindo tanto visitantes locais como turistas estrangeiros em busca de experiências autênticas. Nos últimos anos, o setor tem visto surgir novos empreendimentos, espaços criativos e propostas gastronómicas contemporâneas que se integram naturalmente nas históricas «picadas». 

Zenén Vargas, o «Rei dos letreiros»

Uma das figuras mais emblemáticas do bairro é Zenén Vargas, pintor de letreiros com mais de 50 anos de carreira. Começou a exercer a sua profissão aos 12 anos, seguindo uma tradição familiar, e, com o tempo, desenvolveu o seu próprio estilo tipográfico, a «semicurva achaflanada», que hoje constitui uma característica distintiva da iconografia dos antigos cartazes dos transportes públicos e da paisagem visual de Santiago. 

O seu trabalho caracteriza-se pelo facto de tudo ser feito à mão, defendendo a relevância do artesanato face à produção industrial. Segundo Vargas, «uma máquina não consegue igualar o que a mão faz. Pode copiar, mas a mente é capaz de fazer mil coisas». De facto, esta técnica despertou o interesse de públicos globais, o que levou o artesão a adaptar a sua arte a diversos contextos: «Chegam estrangeiros para me comprar letreiros e também me encomendam trabalhos nos seus idiomas. Já fiz letreiros em hebraico e em chinês, por exemplo».

Sobre o bairro, acrescenta:«Franklin é um bairro histórico devido à sua antiguidade e a toda a história que alberga. Hoje em dia é mais moderno e acessível, mas a tradição continua viva, e é isso que lhe confere o seu valor». 

Ofícios que perduram e um circuito em expansão

Na esquina da Rua Franklin com a Avenida Santa Rosa, Cristian — um vendedor de jornais com mais de 50 anos de experiência — representa a memória viva do bairro. Desde criança que tem sido testemunha da sua transformação: «Antes vendia 310 jornais, agora vendo 20. Revistas como o Condorito ou o Barrabases já não existem como antes». Ainda assim, a sua banca continua a ser um ponto de encontro. «O estrangeiro é curioso… O Chile é uma terra fantástica», comenta.

Esta identidade projeta-se num contexto patrimonial mais amplo. A oeste, Franklin liga-se ao bairro de Huemul e ao teatro com o mesmo nome, parte de uma histórica Zona Típica que reflete os primórdios da cidade moderna.

Paralelamente, os tradicionais Persas Bío Bío e Víctor Manuel mantêm a concorrência comercial com uma oferta que vai desde artigos vintage até ao design contemporâneo, enquanto espaços como a Factoría Franklin projetam o bairro para os circuitos criativos internacionais.

A experiência é completada pela sua reconhecida rota de restaurantes e «picadas», onde os clássicos da cozinha chilena convivem com propostas de inspiração internacional, consolidando Franklin como um ponto de encontro entre culturas.

Assim, entre história, ofícios e novas formas de expressão, o bairro não só preserva a sua identidade, como a projeta para o mundo como uma expressão autêntica da cultura urbana chilena.