11 de maio de 2021 #Chile diverso #Cultura

Living Room Theatre: Reinventar o teatro durante a pandemia, com peças especialmente concebidas para o formato online

Definições de acessibilidade

Peças de teatro em que a plataforma de videoconferência faz parte da história. Esta é a premissa do Living Room Theatre, peças originais interpretadas em direto via Zoom por um elenco virtuoso.

A Companhia das Vacas preparava-se para estrear duas produções teatrais ao vivo quando as apresentações teatrais foram suspensas em março de 2020. Neste cenário, Marcos Alvo, o diretor da companhia, propôs ao argumentista Rafael Gumucio que escrevesse uma peça destinada a ser transmitida através de uma plataforma de videoconferência.

"Não queríamos fazer Hamlet pelo Zoom, porque não fazia sentido. A ideia era que a plataforma de videoconferência que utilizámos se tornasse parte da história, que ficasse dentro da narrativa", explica Marcos, pouco mais de um ano após a estreia da primeira peça do Living Room Theatre, intitulada "Master Class", que contou com um elenco virtuoso composto por Luis Gnecco, Amparo Noguera e Gabriel Urzúa.

Desde então, a companhia de teatro já apresentou mais de 40 peças ao vivo e calcula que cerca de 40 000 pessoas tenham comprado pelo menos um bilhete. Este formato experimental, que implica uma horizontalidade entre os actores e o público - uma vez que todos se ligam através do Zoom -, suscitou um interesse internacional. As peças foram adaptadas a um dialeto espanhol neutro e estreadas no mercado colombiano com um elenco local, tendo a companhia procurado também estender-se a outros países da América Latina.

"O que é fantástico neste formato é o facto de ser completamente democrático: a forma como o público nos vê é a forma como nós vemos o público. Estamos todos limitados pela mesma moldura, que é o ecrã do computador, por isso o público vê-nos no mesmo meio que nós o vemos. Penso que é um formato que nos permitirá continuar a explorar novas possibilidades, na medida em que os recursos o permitam", afirma o ator Luis Gnecco, que faz parte do elenco desde o início.

Outra caraterística é a comunidade que se desenvolveu em torno destas obras teatrais. No final da produção, os actores, o produtor, o guionista e o público ligam as suas câmaras para se verem uns aos outros, para se conhecerem e para iniciarem uma conversa descontraída e reflexiva sobre a peça, um espaço único em que o público e os intérpretes discutem um a um.

"Estas conversas são como um trabalho à parte, quase tão importante como a própria peça. Formam uma peça sobre a comunicação com o público, sobre os momentos em que conversamos. O público vê-nos, faz-nos perguntas... é uma parte da peça, muito importante e muito essencial. Nós vemo-nos, eles vêem-nos, nós estamos nas suas casas, eles estão nas nossas casas, e isto produziu uma relação que é ao mesmo tempo muito distante e muito próxima", comenta o argumentista, Rafael Gumucio. Algumas pessoas chegaram a se conectar de um hospital ou estão em confinamento preventivo porque são Covid-positivos ou tiveram contato próximo com alguém que é.

Este formato digital também contribuiu para a descentralização do teatro no Chile. Quase 70% dos que se ligaram fizeram-no a partir de fora de Santiago, e uma parte do público ligou-se mesmo a partir de outros países. "Muitas vezes, fomos recebidos da Austrália, do Canadá, dos Estados Unidos, da Argentina, do Panamá, do México. A maioria são chilenos que vivem no estrangeiro. Há caras que vemos todas as semanas e que agora são tão conhecidas como os próprios actores", conta Marcos, acrescentando que o próprio público lhes pediu para continuarem com estas peças mesmo quando as actividades presenciais forem retomadas. "Quando voltarmos à normalidade, ou à nova normalidade, é nossa intenção voltar ao teatro presencial, mas também continuar com o teatro Zoom", afirma.